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Algoritmo

FSRS: como o algoritmo prevê o seu esquecimento e escolhe o dia certo de cada revisão

Equipe Meu Caderno Digital4 de outubro de 202624 min de leitura

Este guia explica como o Meu Caderno Digital decide o dia em que cada pergunta volta para você. A explicação começa do zero. Você não precisa saber o que é flashcard, algoritmo ou aprendizado de máquina. Cada termo aparece explicado na primeira vez. Os exemplos usam um assunto que quase todo brasileiro conhece: Ayrton Senna.

1. O que é um flashcard

Um flashcard é um cartão com duas faces. A frente traz uma pergunta. O verso traz a resposta. Você lê a pergunta, tenta lembrar a resposta sem olhar e só depois vira o cartão. A palavra vem do inglês (flash quer dizer “relance” e card quer dizer “cartão”).

Experimente com o cartão abaixo. Leia a pergunta, responda na cabeça e depois toque no cartão para ver o verso.

Frente · perguntaQuem foi o maior piloto brasileiro da história da Fórmula 1?Tente lembrar antes de virar. Toque no cartão.
Verso · respostaAyrton SennaTrês vezes campeão do mundo: 1988, 1990 e 1991.

O esforço de tentar lembrar é a parte mais importante. Os psicólogos chamam esse esforço de prática de recuperação (recuperar é “puxar da memória”). Em 2006, Henry Roediger e Jeffrey Karpicke mostraram que estudantes que se testavam lembravam bem mais depois de uma semana do que estudantes que só reliam o texto 15. O flashcard é o jeito mais simples de se testar todos os dias.

Existe também o cartão de lacuna. Ele mostra uma frase com um pedaço escondido. Você precisa completar o pedaço que falta. Veja um exemplo:

Cartão de lacuna

Ayrton Senna morreu em , no Grande Prêmio de San Marino, no circuito de Ímola.

Tente completar a lacuna. Depois toque nela.

No Meu Caderno Digital, os cartões nascem do seu resumo. Cada conceito pode virar uma pergunta, uma lacuna ou uma imagem com partes escondidas.

Do fácil ao difícil: uma pilha de cartões sobre Senna

Imagine uma pilha de cartões sobre Ayrton Senna. Alguns cartões são fáceis para qualquer brasileiro. Outros só um fã responde. A tabela mostra a pilha, do mais fácil para o mais difícil.

Pergunta (frente)Resposta (verso)Quem acerta
Quem foi o maior piloto brasileiro da Fórmula 1?Ayrton SennaQuase todo mundo
Quantos títulos mundiais Senna conquistou?TrêsMuita gente
Em que anos Senna foi campeão?1988, 1990 e 1991Quem acompanha esporte
Por qual equipe Senna conquistou os três títulos?McLarenQuem acompanha Fórmula 1
Quantos anos Senna tinha no primeiro título?28 anos (ele nasceu em 21 de março de 1960)Fãs
Por qual equipe Senna estreou na Fórmula 1, em 1984?TolemanFãs
Onde Senna venceu a primeira corrida?No Grande Prêmio de Portugal de 1985, na chuva, pela LotusFãs de verdade
Quantas vezes Senna venceu em Mônaco?Seis (1987 e de 1989 a 1993)Fãs de verdade

Repare numa coisa. A primeira pergunta quase não precisa de revisão. A pergunta sobre Mônaco precisa de muitas revisões. Um calendário igual para todos os cartões desperdiça tempo nas perguntas fáceis e abandona as difíceis. O FSRS existe para resolver esse problema.

2. As quatro notas: Errei, Difícil, Bom e Fácil

Depois de virar o cartão, você dá uma nota para a sua lembrança. A nota não mede se você é bom aluno. A nota descreve como foi lembrar aquela resposta naquele momento.

  • Errei Você não lembrou ou lembrou errado. Exemplo: a pergunta pede a primeira equipe de Senna, e você respondeu “Lotus” (a resposta certa é Toleman).
  • Difícil Você lembrou, mas com muito esforço ou com dúvida. Exemplo: você demorou e chutou “acho que foram três títulos”.
  • Bom Você lembrou com algum esforço normal. Exemplo: você pensou um pouco e respondeu “1988, 1990 e 1991”.
  • Fácil A resposta veio na hora, sem esforço nenhum. Exemplo: “Quem foi o maior piloto brasileiro?” — “Senna”.

Cada nota muda o dia em que o cartão volta. No exemplo do cartão acima, “Fácil” manda o cartão para daqui a 16 dias. “Errei” traz o cartão de volta em 1 minuto. A seção 9 mostra a conta por trás desses números.

3. Por que a gente esquece

Em 1885, o psicólogo alemão Hermann Ebbinghaus fez um experimento consigo mesmo. Ele decorou listas de sílabas sem sentido (como “DAX” e “BUP”). Depois ele mediu quanto lembrava após minutos, horas e dias 1. O resultado ficou famoso como curva do esquecimento. A memória cai muito rápido nas primeiras horas. Depois ela cai cada vez mais devagar.

Em 2015, Jaap Murre e Joeri Dros, da Universidade de Amsterdã, repetiram o experimento com o mesmo método. A curva saiu muito parecida com a de Ebbinghaus 2. Ou seja: esquecer rápido é o normal. Não é falta de inteligência.

A ideia central: você não consegue impedir o esquecimento. Você consegue escolher quando revisar. E esse “quando” muda tudo.

4. Revisão espaçada: o dia certo de revisar

Revisão espaçada é revisar com intervalos que crescem: hoje, daqui a alguns dias, daqui a algumas semanas. Em 2006, Nicholas Cepeda e colegas reuniram centenas de experimentos numa grande análise (os cientistas chamam isso de meta-análise). A conclusão foi clara: espaçar as revisões rende muito mais do que estudar tudo de uma vez na véspera 4. Em 2008, o mesmo grupo testou mais de 1.300 pessoas. O melhor intervalo dependia da data da prova: quanto mais longe a prova, maior o intervalo ideal 5.

Revisar também tem um momento bom. Pense no cartão “Em que anos Senna foi campeão?”.

  • Cedo demais Você revisa no dia seguinte e ainda lembra tudo. O esforço é pequeno. O ganho também.
  • Na hora certa Você revisa quando a lembrança começa a falhar. Lembrar dá trabalho, e esse trabalho deixa a memória mais forte.
  • Tarde demais Você revisa depois de três meses. Você já esqueceu e precisa reaprender quase do zero.

Robert e Elizabeth Bjork, da Universidade da Califórnia, chamam esse esforço útil de dificuldade desejável. Segundo a teoria deles, lembrar uma coisa que já estava ficando fraca fortalece mais a memória do que lembrar uma coisa fresca 3. O FSRS tenta acertar exatamente esse ponto: o dia em que lembrar ainda é possível, mas já dá trabalho.

5. Do caderno de papel ao FSRS

Nos anos 1970, o jornalista alemão Sebastian Leitner popularizou um método com caixas de papelão. O cartão acertado ia para uma caixa revisada com menos frequência. O cartão errado voltava para a primeira caixa. O método funcionava, mas as caixas tinham intervalos fixos.

No fim dos anos 1980, o pesquisador polonês Piotr Woźniak criou o SuperMemo, um programa de computador para flashcards. O algoritmo dele, chamado SM-2, multiplicava o intervalo anterior por um “fator de facilidade”. Esse fator subia quando você acertava e descia quando você errava 6. O SM-2 foi o padrão do Anki (o app de flashcards mais usado do mundo) por muitos anos.

Um algoritmo é uma receita de passos que o computador segue para tomar uma decisão. O SM-2 era uma receita escrita à mão. Ele não calculava a chance de você lembrar. Ele só aplicava regras fixas.

Na década de 2010, os pesquisadores começaram a usar dados reais para criar as regras. Em 2016, Burr Settles e Brendan Meeder, do Duolingo, criaram um modelo que estima a “meia-vida” de cada palavra para cada aluno 8. Meia-vida é o tempo até a chance de lembrar cair pela metade. Em 2019, Behzad Tabibian e colegas trataram a escolha do momento da revisão como um problema de matemática de controle 9.

O FSRS (sigla em inglês para “agendador livre de repetição espaçada”) nasceu dessa linha de pesquisa. Em 2022, Junyao Ye, Jingyong Su e Yilong Cao publicaram o modelo na conferência KDD, uma das mais importantes de ciência de dados 10. Em 2023, o trabalho saiu ampliado numa revista científica da área 11. O código do FSRS é aberto (qualquer pessoa pode conferir as contas). A partir da versão 23.10, o Anki passou a oferecer o FSRS como agendador 12.

6. Três números para cada cartão

O FSRS descreve a sua memória de cada cartão com três números. Por isso o modelo também se chama DSR (as iniciais dos três). A ideia vem de estudos de Woźniak sobre os componentes da memória 7 e da teoria dos Bjork 3.

  • D · Dificuldade (de 1 a 10) Quanto esse cartão é difícil para você. “Quem foi o maior piloto brasileiro?” tem dificuldade baixa. “Quantas vezes Senna venceu em Mônaco?” tende a ter dificuldade alta.
  • S · Estabilidade (em dias) Quantos dias leva para a chance de lembrar cair de 100% para 90%. Estabilidade de 30 quer dizer: daqui a 30 dias, você ainda tem 90% de chance de lembrar.
  • R · Recuperabilidade (de 0% a 100%) A chance de você lembrar agora. Ela cai a cada dia que passa sem revisão.

Os números D e S ficam guardados no cartão. Eles mudam a cada resposta sua. O número R é calculado na hora, a partir de S e dos dias que passaram.

7. A fórmula da curva do esquecimento

A fórmula abaixo calcula R, a chance de lembrar. Não se assuste com ela. Logo depois vem a mesma conta com números.

R = ( 1 + F × t ÷ S ) ^ (−0,5) F = 19 ÷ 81 ≈ 0,235 t é o número de dias desde a última revisão. S é a estabilidade. O sinal ^ quer dizer “elevado a”. Elevar a −0,5 é o mesmo que dividir 1 pela raiz quadrada.

Exemplo com Senna. Você estudou o cartão “Em que anos Senna foi campeão?”. A estabilidade dele é de 4 dias. Quanto você lembra daqui a 8 dias?

  1. Divida os dias pela estabilidade: 8 ÷ 4 = 2.
  2. Multiplique por F: 0,235 × 2 = 0,47.
  3. Some 1: 1 + 0,47 = 1,47.
  4. Tire a raiz quadrada: √1,47 ≈ 1,21.
  5. Divida 1 pelo resultado: 1 ÷ 1,21 ≈ 0,825.

A chance de lembrar daqui a 8 dias é de cerca de 82%. No 4º dia (t igual a S), a mesma conta dá exatamente 90%. Esse é o motivo de F valer 19 ÷ 81: o valor faz a estabilidade virar “o dia em que a chance chega a 90%”.

0 d10 d20 d30 d40 d50 d60 d100%90%80%70%60%50%dias desde a última revisãochance de lembrarmeta de 90%S = 4 diasS = 40 dias
Os dois cartões começam em 100%. O cartão de estabilidade 4 chega a 90% no 4º dia e cai depressa. O cartão de estabilidade 40 só chega a 90% no 40º dia. A estabilidade é isso: o número de dias até a chance de lembrar cair para 90%.

Por que essa forma de curva, e não outra? A memória de muitas pessoas e de muitos assuntos esquece no formato de uma lei de potência: cai depressa no começo e muito devagar depois. John Wixted e Ebbe Ebbesen mostraram esse formato em 1991 13. A fórmula do FSRS-5 segue essa forma.

8. Da curva ao dia da revisão

Você escolhe uma retenção desejada: a chance de lembrar que você aceita ter no dia da revisão. No Meu Caderno Digital, o padrão é 90%. O FSRS faz a conta ao contrário. Ele procura o dia em que R vai cair até a sua meta.

intervalo = S ÷ F × ( 1 ÷ r² − 1 ) r é a retenção desejada, escrita como número (90% vira 0,9). O intervalo sai em dias.

Exemplo com Senna. O cartão dos anos dos títulos tem estabilidade de 4,47 dias. Com meta de 90%:

  1. Eleve a meta ao quadrado: 0,9 × 0,9 = 0,81.
  2. Divida 1 pelo resultado e tire 1: (1 ÷ 0,81) − 1 ≈ 0,235.
  3. Multiplique por S ÷ F: 4,47 ÷ 0,235 × 0,235 ≈ 4,47.

O cartão volta em 4 dias. Com meta de 90%, o intervalo é sempre igual à estabilidade. Mude a meta e o intervalo muda junto:

Retenção desejadaCartão com S = 10 dias volta em
80%24 dias
85%16 dias
90%10 dias
95%5 dias
97%3 dias

A curva abaixo mostra o resultado na prática. Cada revisão leva a lembrança de volta para perto de 100%. Depois de cada revisão a queda fica mais lenta, e o cartão some por mais tempo.

0 d4 d18 d30 d45 d62 d100%90%80%70%60%50%dias desde o primeiro estudochance de lembrarsem revisar2ª3ª4ª
Um cartão respondido com “Bom” em todas as revisões. Cada revisão (pontos amarelos) acontece quando a chance de lembrar chega perto de 90%. Depois de cada revisão a curva cai mais devagar. Os intervalos crescem: 4 dias, depois 14, depois 44. A linha cinza mostra o mesmo cartão sem nenhuma revisão.

9. O que muda depois de cada resposta

A primeira resposta

Na primeira vez, a nota define a estabilidade e a dificuldade iniciais. Os valores abaixo vêm dos parâmetros padrão do FSRS-5.

Primeira notaEstabilidade inicialDificuldade inicialExemplo de cartão
Errei0,4 dia7,2Primeira equipe de Senna (Toleman)
Difícil1,2 dia6,5Idade no primeiro título (28 anos)
Bom3,2 dias5,3Anos dos títulos (1988, 1990 e 1991)
Fácil15,7 dias3,2Maior piloto brasileiro (Senna)

Quando você lembra

A nova estabilidade é a antiga multiplicada por um fator de crescimento. A fórmula completa é esta:

S novo = S × ( 1 + e^w8 × (11 − D) × S^(−w9) × ( e^(w10 × (1 − R)) − 1 ) × bônus ) Os w são parâmetros (números ajustados com dados, explicados na seção 10). O e é uma constante da matemática (vale cerca de 2,718). O bônus é menor que 1 para Difícil e maior que 1 para Fácil.

A fórmula parece complicada, mas cada pedaço tem uma ideia simples. Veja com o cartão “Em que anos Senna foi campeão?” (estabilidade 4,47 e dificuldade 5,3):

  • (11 − D): cartão difícil cresce mais devagar. Com dificuldade 5,3, o pedaço vale 5,7. Com dificuldade 8, ele vale só 3. A pergunta sobre Mônaco (difícil para quase todo mundo) cresce mais devagar do que a pergunta sobre o maior piloto.
  • S^(−w9): quanto mais firme, menor o salto. Uma lembrança de 4 dias pode triplicar. Uma lembrança de 100 dias cresce menos de 3 vezes. A memória tem um teto natural.
  • e^(w10 × (1 − R)) − 1: lembrar com esforço rende mais. Esse pedaço cresce quando R está mais baixo. É a dificuldade desejável dos Bjork transformada em conta.

Os números mostram o efeito. O mesmo cartão, revisado em três momentos diferentes e respondido com “Bom”:

Quando você revisouChance de lembrar naquele diaNova estabilidade
No 4º dia (na hora certa)90%15 dias
No 11º dia (atrasado)80%27 dias
Bem mais tarde70%40 dias

Então vale a pena atrasar de propósito? Não. A tabela só mostra os casos em que você acertou. Quanto mais você atrasa, maior é a chance de errar. E o erro custa caro, como mostra o próximo trecho.

Quando você erra

A estabilidade cai, mas não volta a zero. O que você já tinha aprendido ajuda a reaprender. Um cartão com estabilidade de 20 dias e dificuldade 5, por exemplo, cai para cerca de 3 dias depois de um erro. O cartão volta em 10 minutos para você fixar de novo.

A dificuldade também muda. Ela sobe a cada erro e desce a cada acerto fácil. O FSRS sempre puxa a dificuldade um pouco para o meio. Assim, um dia ruim não marca o cartão para sempre.

1ª2ª3ª4ª5ª6ª7ª1 dia1 semana1 mês1 anonúmero da revisãoestabilidade (escala que cresce de 10 em 10 vezes)
Fácil, Fácil, FácilBom em todasDifícil na 1ª, depois BomErrei na 1ª e na 5ª
Cada linha é um cartão. O eixo da estabilidade cresce de 10 em 10 vezes (1 dia, 10 dias, 100 dias). Quem acerta com facilidade passa de 1 ano na 3ª revisão. Quem erra cai para perto do começo, mas não volta a zero.

10. Onde entra o aprendizado de máquina

As fórmulas do FSRS-5 têm 19 parâmetros, os w. Eles dizem, por exemplo, quanto a estabilidade cresce num acerto e quanto um erro custa. Ninguém escolheu esses números no chute. Eles foram aprendidos a partir de dados. Isso é o que os cientistas chamam de aprendizado de máquina: o computador ajusta números para que uma fórmula acerte as previsões.

O treino funciona em quatro passos:

  1. Juntar exemplos. Cada revisão registrada vira um exemplo: o histórico do cartão, os dias que passaram e o resultado (lembrou ou esqueceu). O projeto aberto do FSRS usa centenas de milhões de revisões reais de estudantes.
  2. Prever. Para cada exemplo, o modelo calcula a chance de lembrar. Exemplo: “o estudante tem 85% de chance de lembrar a equipe da estreia de Senna hoje”.
  3. Medir o erro. O modelo compara a previsão com o que aconteceu. Se ele deu 85% e o estudante errou, a previsão estava otimista demais.
  4. Ajustar. Um método chamado descida do gradiente muda os 19 números um pouquinho de cada vez. A direção da mudança é sempre a que diminui o erro. O processo se repete milhões de vezes.

Como o modelo mede o erro? Ele usa uma conta chamada perda logarítmica (em inglês, log loss):

perda = − média de [ y × ln(R) + (1 − y) × ln(1 − R) ] y vale 1 quando a pessoa lembrou e 0 quando esqueceu. ln é o logaritmo natural, uma função que fica muito negativa para números perto de zero.

A ideia por trás da conta é simples. O modelo leva uma “multa” a cada previsão. A multa é pequena quando ele acerta com confiança. A multa é enorme quando ele erra com confiança. Veja com o cartão da estreia de Senna:

Previsão do modeloO que aconteceuMulta
95% de chance de lembrarLembrou0,05 (quase nada)
95% de chance de lembrarEsqueceu3,0 (muito alta)
60% de chance de lembrarLembrou0,51
60% de chance de lembrarEsqueceu0,92

Um bom modelo também precisa ser calibrado. Calibrado quer dizer: entre todos os cartões a que ele deu 90%, cerca de 90 em cada 100 são lembrados de verdade. Cada revisão funciona como o lançamento de uma moeda viciada. A chance de dar “lembrou” é R. Uma moeda isolada não diz muita coisa. Milhões de moedas mostram se as chances estavam certas.

O projeto aberto mantém um comparativo público chamado srs-benchmark. Ele mede a perda logarítmica e a calibração de vários agendadores com os mesmos dados. Nesse comparativo, o FSRS erra bem menos do que o SM-2 e do que o modelo do Duolingo 14.

Em resumo: as fórmulas dão a forma da memória (a curva, o crescimento, a queda depois do erro). Os dados de milhões de estudantes dão os números exatos. As suas respostas mostram em que ponto da curva cada cartão seu está.

11. Quanto revisar: a retenção desejada

Prever a memória é metade do trabalho. A outra metade é decidir quanto revisar. No artigo da KDD, Ye e colegas trataram o estudo como um problema de caminho mais curto 10. Pense num mapa. Cada revisão é um passo e custa um pouco do seu tempo. O destino é uma memória firme. O objetivo é chegar lá com o menor número de passos. O artigo mostrou que esse cálculo reduz o tempo total de revisão em comparação com as regras fixas.

No dia a dia, essa escolha aparece na retenção desejada. O gráfico mostra o custo de cada meta para um único cartão ao longo de um ano.

80%85%90%95%97%04812retenção desejadarevisões em 1 ano345812
O mesmo cartão (respondido sempre com “Bom”) ao longo de um ano. Com meta de 90%, ele volta 5 vezes. Com meta de 97%, ele volta 12 vezes. Os últimos pontos de retenção são os mais caros.

Meta baixa demais faz você esquecer muito e reaprender muito. Meta alta demais multiplica as revisões. Para a maioria das pessoas, valores entre 85% e 95% equilibram as duas coisas. O próprio projeto do FSRS recomenda começar com 90% 12.

12. Como o Meu Caderno Digital usa tudo isso

  • FSRS-5 com os parâmetros padrão. O app usa as fórmulas do FSRS-5 e os 19 parâmetros treinados pelo projeto aberto. A dificuldade e a estabilidade de cada cartão mudam a cada resposta sua.
  • Flashcards e questões. As duas filas seguem o FSRS. Cada flashcard e cada questão tem a própria curva.
  • Você escolhe a retenção. Nas configurações, a meta de retenção muda todos os intervalos dali para a frente. O padrão é 90%.
  • Os botões mostram o futuro. Antes de responder, cada botão mostra quando o cartão volta.
  • Primeiros passos curtos. Um cartão novo ou esquecido volta em minutos (1, 5 ou 10) até firmar. Só depois ele passa a ganhar dias.
  • Dias de folga respeitados. Nos dias desmarcados, nada é cobrado. A revisão desse dia vai para o dia de estudo mais próximo.
  • Metas por dia. Você define quantos cartões novos entram por dia e, se quiser, um limite de revisões.

13. O que o FSRS não faz

O FSRS calcula chances. Ele não garante que você vai lembrar de tudo. Ele também não substitui entender o conteúdo. Três cuidados ajudam a previsão a funcionar:

  • Responda com honestidade. A nota é o dado que alimenta o modelo. Se você marca “Bom” quando quase errou, o cartão some por tempo demais.
  • Use “Fácil” com moderação. O “Fácil” aumenta muito a estabilidade. Guarde essa nota para respostas que vieram na hora, sem esforço.
  • Revise com constância. O modelo aceita atrasos e recalcula as datas. A memória, porém, não espera. Poucas revisões todos os dias rendem mais do que muitas revisões uma vez por semana.

Com esses cuidados, o FSRS faz a parte que o cérebro não consegue fazer sozinho: acompanhar a curva de cada um dos seus cartões e chamar cada um no dia certo.

Referências

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  2. Murre, J. M. J., & Dros, J. (2015). Replication and analysis of Ebbinghaus’ forgetting curve. PLOS ONE, 10(7), e0120644. doi:10.1371/journal.pone.0120644
  3. Bjork, R. A., & Bjork, E. L. (1992). A new theory of disuse and an old theory of stimulus fluctuation. Em A. Healy, S. Kosslyn & R. Shiffrin (Orgs.), From learning processes to cognitive processes: Essays in honor of William K. Estes (v. 2, p. 35–67). Erlbaum. https://cir.nii.ac.jp/crid/1370004239465659018
  4. Cepeda, N. J., Pashler, H., Vul, E., Wixted, J. T., & Rohrer, D. (2006). Distributed practice in verbal recall tasks: A review and quantitative synthesis. Psychological Bulletin, 132(3), 354–380. doi:10.1037/0033-2909.132.3.354
  5. Cepeda, N. J., Vul, E., Rohrer, D., Wixted, J. T., & Pashler, H. (2008). Spacing effects in learning: A temporal ridgeline of optimal retention. Psychological Science, 19(11), 1095–1102. doi:10.1111/j.1467-9280.2008.02209.x
  6. Woźniak, P. A., & Gorzelańczyk, E. J. (1994). Optimization of repetition spacing in the practice of learning. Acta Neurobiologiae Experimentalis, 54, 59–62. https://ane.pl/index.php/ane/article/view/1003
  7. Woźniak, P. A., Gorzelańczyk, E. J., & Murakowski, J. A. (1995). Two components of long-term memory. Acta Neurobiologiae Experimentalis, 55, 301–305. https://supermemo.guru/wiki/ANE1995
  8. Settles, B., & Meeder, B. (2016). A trainable spaced repetition model for language learning. Proceedings of the 54th Annual Meeting of the Association for Computational Linguistics, 1848–1858. doi:10.18653/v1/P16-1174
  9. Tabibian, B., Upadhyay, U., De, A., Zarezade, A., Schölkopf, B., & Gomez-Rodriguez, M. (2019). Enhancing human learning via spaced repetition optimization. Proceedings of the National Academy of Sciences, 116(10), 3988–3993. doi:10.1073/pnas.1815156116
  10. Ye, J., Su, J., & Cao, Y. (2022). A stochastic shortest path algorithm for optimizing spaced repetition scheduling. Proceedings of the 28th ACM SIGKDD Conference on Knowledge Discovery and Data Mining, 4381–4390. doi:10.1145/3534678.3539081
  11. Su, J., Ye, J., Nie, L., Cao, Y., & Chen, Y. (2023). Optimizing spaced repetition schedule by capturing the dynamics of memory. IEEE Transactions on Knowledge and Data Engineering, 35(10), 10085–10097. doi:10.1109/TKDE.2023.3251721
  12. Open Spaced Repetition. The FSRS algorithm (documentação do projeto aberto). https://github.com/open-spaced-repetition/fsrs4anki/wiki/The-Algorithm
  13. Wixted, J. T., & Ebbesen, E. B. (1991). On the form of forgetting. Psychological Science, 2(6), 409–415. doi:10.1111/j.1467-9280.1991.tb00175.x
  14. Open Spaced Repetition. srs-benchmark: a benchmark for spaced repetition schedulers. https://github.com/open-spaced-repetition/srs-benchmark
  15. Roediger, H. L., & Karpicke, J. D. (2006). Test-enhanced learning: Taking memory tests improves long-term retention. Psychological Science, 17(3), 249–255. doi:10.1111/j.1467-9280.2006.01693.x

Este artigo tem caráter informativo e resume pesquisas publicadas. Os resultados citados foram obtidos nas condições de cada estudo.

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